segunda-feira, 26 de novembro de 2007

Parte II

Por Rachel Ok

Somente para atrapalhar a vida de quem está chegando agora (seja bem vindo!!!), coloquei este título que significa exatamente o que está escrito. Hehehe... E o pior é que a primeira parte NÃO se chama "Parte I". Hehehe... Mas este blog é novinho, não será uma busca tão longa assim. Na verdade, será bem fácil...
Quando resolvemos comprar o computador, passamos por um dilema terrível envolvendo respeito aos direitos autorais e avareza, salpicado com o fato de não dominarmos a língua japonesa (nem a falada, e muito menos a escrita! Alguém tem idéia de quantos kanjis existem? São milhares...).
Ir até a loja já foi um sufoco e tanto: quilômetros infinitos de bicicleta até chegarmos lá, debaixo de um sol de rachar mamona, termômetros marcando cerca de 40 graus. Minha irmã parecia que iria desmaiar quando chegamos. E o pior foi que não encontramos um que fosse do nosso gosto, e acabamos comprando em uma loja que ficava metade do percurso mais perto. E se isso já parece ruim que chega, é porque vocês nunca carregaram um computador e seus periféricos básicos na garupa de uma bicicleta...
Chegando em casa, nem tivemos muito ânimo em apreciar a nossa mais recente aquisição. Nem haveria muita graça, afinal não teríamos acesso á internet por uma semana ainda. Assim, por uns três ou quatro dias essa belezinha aqui ficou repousando na mesinha que improvisamos (e que se tornou definitiva), aguardando o momento de botar as garrinhas de fora.
Faltando uns três dias para a data em que seria ativada a internet aqui de casa, o provedor, depois de muitas discussões acerca da instalação não poder ser efetuada e blábláblá (problema resolvido rapidamente, não vale muitos comentários a respeito), enviou o modem para que fossem feitas as devidas configurações. Se vocês pensam que vem assistência técnica, para configurar e instalar o aparelho corretamente, estão redondamente enganados. Veio a caixa, com o aparelho, vários fios e soquetes de telefone, um manual bastante grosso em japonês (com todos os kanjis imagináveis), e uma folhinha escura, xerox do xerox do xerox, com as instruções super resumidas em um idioma que supostamente seria o português...
Uma coisa muito útil que aprendi durante esses anos de semi-analfabetismo no Japão, é que quando você não entende o que está escrito, a saída é apelar para os desenhos. Então, abri o manual grosso (muito bem ilustrado, por sinal), e, passo a passo, fui fazendo o que as figuras mostravam. Muito satisfeita comigo mesma, terminei o serviço, e logo que encontrei com a minha irmã, comuniquei-lhe o que havia feito, recebendo um sorriso de aprovação que encheu o meu ego. Obviamente, comentei assim, meio por cima, que tinha um formulário lá que pedia um Id de seiláoque, um password de nãoseidoqueestáfalando, um username de nuncavimaisgordo... Mas passei a senha para ela, quem sabe era só isso que importava...
No dia D, quando finalmente sairíamos da escuridão e deixaríamos de ser criaturas medievais, alguém daqui de casa abre a caixa do correio pela manhã e encontra um grande envelope, com o logotipo do provedor de internet, contendo diversos papéis de boa qualidade, todos em japonês, e uma única folhinha escura, xerox do xerox do xerox, naquele idioma que descrevi antes, tentando explicar assim, meio por cima, o que diziam os "papéis principais". Pelo que deu prá perceber, os papéis importantes continham sequências de números e letras correspondentes a Id, senha e nome do usuário..."Acho que isso me é familiar...", penso eu. Mas, como eu iria trabalhar, o serviço ficaria por conta da minha irmã, que estaria em casa durante o dia. Como trabalhávamos na mesma fábrica, eu durante o dia e ela durante a noite, nós nos encontrávamos somente na troca de turno e nos dias de folga. Assim, no final do dia, quando ela chegou para troca de turno, logo veio em minha direção, quando pensei: " Putz, não deu certo...". Mas, para minha surpresa, ela estava sorridente e disse que tudo estava OK! Como assim? Será um milagre?
Felicíssima, fui prá casa, já pensando no que eu faria primeiro quando sentasse em frente ao computador, após tanto tempo. Quando cheguei, fui diretamente para frente do PC, estava ligado, pois a minha irmã estava baixando uns programas, antivírus, ITunes e tal. Que satisfação, ver a janela do Internet Explorer aberta, aquele Google com suas letrinhas coloridas olhando para mim, o íconezinho do computadorzinho da barra de tarefas azulzinho... Foi uma emoção quase incontrolável...
Primeira providência: abrir uma conta de e-mail. Digitei o endereço do hotmail, e cliquei na setinha do Go! E assim, tudo se desfez, com apenas um clique. A página não carregou, o Google se escondeu atrás da mensagem em japonês de página não encontrada do Internet Explorer, e o computadorzinho da barra de tarefas ganhou um grande X vermelho...
"Não, não é possível!!!", penso eu. "Estava tudo bem até exatamente agora!!!" Fechei e abri o Explorer, nada. Tentei conectar manualmente, e tudo o que recebi foi uma mensagem em japonês, indecifrável. Reiniciei o computador, nada... Só me restou uma opção: pensar no jeito mais delicado de dar a notícia para minha irmã... Pensei em inventar uma desculpa, mas nenhuma daria certo. Jogar a culpa em alguém seria crueldade. Então, resolvi ser bem rápida e objetiva, e que fosse o que Deus quisesse!
Na manhã seguinte, ao entrar na fábrica, logo avistei a minha irmã, bem sorridente, provavelmente pensando o que ela iria fazer quando se sentasse em frente ao computador. A sensação do balde de água fria na minha mão começou a incomodar. Mas respirei fundo e disse, antes mesmo do "Bom dia Rê" habitual: "Rê, dei pau no computador." Ou seja, joguei o balde de água... O sorriso dela se desfez em uma fisionomia de indignação, quando me perguntou: "Como assim???" Comecei a encolher, e, covardemente, disse: "Eu só digitei o endereço do hotmail e apertei o botão lá e a página não carregou e não fiz mais nada, juro!!!" Com um leve tom de impaciência, mas aparentemente convencida da minha inocência, ela disse: "Tudo bem, quando chegar em casa eu arrumo..." "Mas como você vai conseguir?", pergunto. "Deixa que eu ligo na assistência em português, não tem problema.", responde ela.
Ligar em central de assistência técnica é um saco em qualquer lugar, em qualquer idioma. Senti muita pena pela minha irmã, mas no final, deu tudo certo. Ela me proibiu de mexer em configurações por uns dois dias, e depois tudo voltou ao normal.
Até que o computador completou 1 mês de vida...
(continua... Está ficando cada vez pior, não?)

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